domingo, 10 de dezembro de 2017

Momentos de Tensão: O Retorno de Aswan para o Cairo (7° Dia - 02/02)





Tudo se passara bem até aquele momento, já havíamos visitado Abu-Simbel (ver postagem Visitando o grandioso templo de Abu Simbel construído pelo faraó Ramsés II (07º Dia - 01/02)), fizemos novas amizades com os outros turistas do grupo e estávamos só aguardando no hotel a chegada da hora para seguirmos ao aeroporto de Aswan e retornar ao Cairo. Porém, ao pesquisar por notícias no celular, nos deparamos com a informação de que no dia anterior, na cidade onde estávamos, algumas pessoas haviam sido mortas devido ao início de uma disputa entre duas etnias desta região do Egito. Essa informação fez todo o sentido quando ligamos ao fato de que ao olharmos pela janela do hotel a avenida estava deserta, poucos carros, nenhuma pessoa nas calçadas, muito diferente do dia anterior e do que ocorre rotineiramente nas cidades egípcias. Foi então que o rapaz que cuidava do hotel nos disse: "Eu vou chamar um táxi para levar vocês ao aeroporto imediatamente, está havendo um problema na cidade e é melhor vocês irem logo ou poderemos ter problemas para atravessar a cidade mais tarde..." Aquilo começou a nos deixar realmente preocupados, além de ser perigoso ainda tínhamos o risco de não chegarmos ao aeroporto devido aos rumores do que estava ocorrendo na cidade. Na TV passavam imagens de manifestações violentas, com a polícia tentando conter uma multidão no centro da cidade. O atendente do hotel ia traduzindo pra gente do árabe para o inglês: "...Acabaram de fechar a estação de trem", disse ele. Repentinamente tudo ficou tenso, o tom de preocupação do dono do hotel que assistia o noticiário, a preocupação do atendente relacionada ao fato de que o taxista estava demorando e já estava começando a escurecer. Os únicos som que escutávamos das ruas eram de viaturas da polícia e do exército passando pela avenida, supostamente se deslocando para reforçar a segurança em pontos estratégicos. Da mesma forma, dissidentes também se movimentavam. Uma caminhonete com pessoas armadas na caçamba cruzou a avenida em frente ao nosso hotel, o que nos deixou cada vez mais aflitos...

Comboio Polícia e Exército de Aswan
Força Policial de Aswan
Exército de Aswan
Polícia de Aswan


Lá pelas 19:30, já escuro, o atendente do hotel nos avisou para descermos que o táxi já havia chegado. Descemos e entramos rapidamente no carro. O motorista, um senhor árabe, vestindo uma túnica, turbante na cabeça que não parou de fumar nem um instante enquanto colocava nossas mochilas no bagageiro. O atendente trocou algumas palavras em árabe com o taxista e decidiu nos acompanhar até o aeroporto. Há algumas quadras da nossa origem recebeu uma ligação, falou algo para o motorista, o motorista parou o veículo, o atendente virou para nós e disse que precisava ir, pois no hospital onde trabalhava também como segurança haviam chegado muitas pessoas feridas e precisavam dele lá. Simplesmente desceu do carro e foi embora. Havíamos pago a corrida antecipadamente a ele no hotel. Partimos por ruas desertas da cidade, eu e a Estela no banco de trás e o motorista fumando e sem dizer uma palavra sequer na direção. Naquele momento, cada um com suas aflições, apenas esperávamos que o atendente do hotel tivesse bem instruído o taxista, avisado que a corrida já estava paga e torcíamos para chegar logo ao aeroporto. Foi então que entramos em uma rua e lá na frente, avistamos uma fogueira no meio da pista trancando a passagem. Conforme o táxi se aproximava dava pra ver alguns homens logo à frente da fogueira, armados com pedaços de pau e barras de ferro. Eu e a Estela não falávamos uma palavra sequer, os dois paralisados no banco de trás como em um sonho em que você não consegue se mexer, mesmo vendo uma situação de perigo logo à frente. Conforme o carro se aproximava nossos pensamentos convergiam para: "não pode ser, ele vai desviar, deve ter uma entrada antes da fogueira, não é possível". Porém ele continuou tranquilamente. Ao chegar ao ponto de bloqueio o motorista apenas baixou seu vidro e resmungou alguma coisa em árabe. Eles olharam pra nós dentro do carro e e abriram passagem pra gente no meio do material que estava queimando. Já havíamos passado por alguns perrengues nesta e em outras viagens, mas neste nível foi realmente sem precedentes. Muitas coisas passam pela nossa cabeça nestas horas, ainda mais em uma região do mundo onde as notícias de ataques terroristas e protestos violentos ainda aconteciam esporadicamente. Nunca pensávamos estar tão próximos disto. Quando passamos pelo bloqueio na rua, mesmo paralisados e sem falar uma palavra um com o outro, nossa sensação foi notória para ambos: um misto de medo, adrenalina e alívio. Seguimos com o táxi por mais alguns quilômetros até sair da cidade. Vimos mais alguns pontos de bloqueio, mas não diretamente no nosso caminho como o anterior.  No caminho do aeroporto passamos sobre a barragem da represa de Aswan, neste ponto fomos parados por militares que pediram os nossos passaportes e fizeram uma rápida vistoria no porta malas do carro. Tudo liberado, continuamos a seguir em direção ao aeroporto.

Trajeto Memnon Hotel a Aeroporto Internacional de Aswan

Foi aí que aconteceu o segundo perrengue da noite. O nosso taxista seguia por uma rodovia escura e praticamente deserta, sem nenhum movimento de veículos. Estávamos tensos, só pensávamos em chegar logo ao aeroporto e sair dali. Foi então que o motorista passou a dirigir acelerando o veículo e bruscamente desacelerando, como se quisesse parar, mas na sequencia desistindo e prosseguindo um pouco mais. Por alguns instantes parecia tal estranha essa percepção que naquela escuridão parecia nem ser verdadeira. Até que ele diminuiu a velocidade e efetivamente parou. No meio do nada. Tudo escuro. Novamente nos olhamos sem entender o que ocorria. Vi a mão do motorista pegar alguma coisa no painel, logo abaixo do rádio, enrolado a um pano. Me pareceu um cabo de faca. Foi então que que ele abriu a porta e saiu do carro com aquilo na mão. Eu estava sentado no lado oposto ao motorista, no banco de trás. Abri a porta, saí por trás e parti ao encontro dele fora do carro. Não sabia o que exatamente ele estava querendo, mas pelas evidências estávamos prestes a ser assaltados ou atacados. Pelo menos eu ia tentar dar uma resistência. Bom, o cara era um velhote, a menos que fosse um mestre das artes marciais, eu até que tinha uma boa chance! Quando ele me viu partindo pra cima dele fez uma cara de espanto, resmungando um "no, no, no problem!" e fazendo um gesto com as mãos, se desculpou dizendo para eu parar. Na sequência ele levou aquilo que estava embrulhado em sua mão até um poste e o escondeu em meio ao mato. "Don't worry, no problem!", disse ele, e foi voltando de mãos vazias para o carro. Eu não entendi muito o que se passara naquele momento, mas voltamos ao carro. A Estela me perguntou o que houve, sem entender nada. Achei melhor não falar, só queria que tudo aquilo acabasse logo. Seguimos com o carro mais alguns metros e para nossa alegria (e alívio), vi uma placa em inglês sinalizando para o aeroporto. "Ufa! pelo menos estávamos na direção correta". Mas... ainda havia a última surpresa da noite. Já com o terminal de passageiros em vista, ao entrarmos no acesso viário do aeroporto, uma barreira de controle do exército logo à frente. Dois soldados gritaram pra pararmos. Um deles atrás de uma barricada com uma metralhadora apontada para o carro e outro com um fuzil também direcionado a nós, dedo no gatilho, gritando pra sairmos do carro. Quando viram que éramos turistas, pediram nossos passaportes e os bilhetes do voo, foram revistar todo o carro. Foi aí que entendi porque o motorista escondeu sua "arma" antes de chegarmos ao aeroporto. Ali eles revistam minunciosamente o carro e ele teria problema se achassem algo de errado. Após a liberação ele nos deixou na entrada do saguão de embarque. Apesar dos pesares tudo acabara bem, graças a Alá!!! Foi o maior alívio que poderíamos ter depois de momentos tão tensos. Estávamos a salvo no aeroporto de Aswan. Para entrar no Saguão do aeroporto mais uma revista nas mochilas e conferência dos passaportes e bilhetes do voo. Fizemos o check-in já próximo das 21:00 h, nosso voo sairia somente a 01:00 da madrugada. Sem problemas, afinal, o que poderia ser pior de tudo o que passamos naquela noite?!
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O voo até o Cairo durou cerca de 1 hora e meia. Quando chegamos, até pegarmos as mochilas, já eram 3:00 h da madrugada. Nosso plano era de seguir de ônibus até Alexandria. Em nossas pesquisas havia uma opção de ônibus que saía ali mesmo de uma estação rodoviária que fica anexa ao aeroporto do Cairo. Porém fomos nos informar pessoalmente e o primeiro horário era somente para as 7:00 h. Decidimos que seria melhor esperar ali mesmo no aeroporto. Dormimos, ou tentamos dormir, sobre as cadeiras do saguão até o dia amanhecer e conseguimos pegar o primeiro ônibus pra Alexandria conforme programado.
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